Aos 111 anos, Conrado torce para testemunhar o fim da pandemia

No registro consta 102 anos, na cabeça a certeza dos 111, e no coração a esperança de dias melhores

LUCAS MAMéDIO / CAMPO GRANDE NEWS


Seu Conrado contando um pouco de sua história (Foto: Kísie Ainoã)

Poucos documentos restaram de uma história de mais de um século. Imagine essa honra, testemunhar tal transformação da humanidade vivo, um privilégio para poucos. Em sua carteira de identidade a data de nascimento registrada é de 8 agosto de 1919, mas ele e a família juram que o nascimento ocorreu pelo menos nove antes disso.

Esse é Conrado Paulino da Silva, lenda do bairro homônimo, o São Conrado, que está prestes, segundo ele, a completar 112 anos. Junto da esposa, a terceira, dona Maria Gonçalves da Silva, que conheceu aos 70 anos, Conrado vive uma vida pacata bem diferente dos anos de exército e fazenda que construíram sua longa história.

Nascido em Bela Vista, mas registrado em Ponta Porã, Conrado conta que alterou a data de nascimento para entrar no exército em 1940. Dono de uma lucidez impressionante para idade, ele lembra que estava velho demais para se alistar e como queria ir para 2ª Guerra Mundial, mentiu para os oficiais.

“Naquela época não se exigia documentos assim para as coisas. Então eu disse que tinha 18, mas na verdade já tinha 27 anos', jura.

O sonho de ir a Grande Guerra não foi concretizado, apesar dos repetidos pedidos aos superiores. “Acho até que pegaram birra de mim'.

O ex-militar diz que ficou três anos e meio no exército servindo na fronteira até deixar as forças armadas para aquilo que foi sua profissão até os 60 anos: peão de fazenda.

Apesar da lucidez, a memória de Seu Conrado é, naturalmente, fragmentada. Quem ajuda a dar ordem a duas história é a esposa, 30 anos mais nova e única companheira.

“O filho mais velho dele tem 87 anos e tem dificuldade de locomoção, quem vem mais são as filhas'.

Conrado teve quatro filhos e homens três mulheres. Antes de Maria, foi casado outras duas vezes; 30 anos com a primeira esposa, mãe de todos os seus filhos, mais quase 20 anos com a segunda agora as três décadas com Maria.

O homem centenário andava até poucos meses, quando por conta de uma queda, tem de se locomover de cadeira de rodas. Ele também foi um dos primeiros a tomar vacina em Campo Grande.

O vírus não o assusta, mas gostaria que acabasse logo. “Eu não entendo direito disso, mas é tudo vontade Deus, assim como eu estar vivo até hoje'.

Além do São Conrado, o casal viveu no bairro Santa Emília, vizinho. Uma das maiores amarguras de Conrado é o “golpe' que levou do ex-patrão, para quem trabalhou quase 40 anos. Essa história quase lhe custou a vida e de um dos filhos.

“Ele me deu uma casa aqui em Campo Grande e depois, quando aposentei, quis de volta. A Justiça não reconheceu meus diretos, mas mesmo assim disse que não ia sair. Ele tentou me matar, mas o pistoleiro me confundiu com meu filho e atitou nele. Graças a Deus não morreu', conta ao lado da esposa, que viveu o drama junto dele.

O mais louco dessa história é que o autor do atentando foi o vizinho de Conrado, um amigo de longa data. Antes de cometer o crime, ele mesmo avisava que a vida do amigo estava em perigo, como se não quisesse consumar o fato.

“Acho que a consciência dele pesou e queria de todo jeito que eu deixasse a terra para não ter que me matar'.

Após o atentado, Conrado conta que jurou o ex-patrão de morte, mas quem o impediu de se vingar foi dona Maria. “Eu disse que se ele fizesse isso não iria casar com ele, então desistiu'.

Foi a partir desse fato que o casal se mudou para a região do Santa Emília e São Conrado. São dias e dias de reflexão sobre uma vida que, para Conrado, não é mais vivida. Segundo Maria, o marido oscila entre dias de felicidade e tristeza, empolgação e frustração.

“Tem dia que ele pede para Deus levar ele logo, mas eu digo que não é assim, que tem tanta gente morrendo, pedindo pela vida'.



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