Cidades / Deodápolis
Investimento público chega à vida das pessoas em Angélica, Ivinhema e Deodápolis
De uma cirurgia que custaria R$ 557 mil ao asfalto esperado por mais de três décadas, moradores relatam como saúde, infraestrutura, educação e programas sociais passaram a interferir no cotidiano de municípios do leste de Mato Grosso do Sul
Assessoria
Geralda de Oliveira Leite ganha um salário mínimo. Aos 59 anos, moradora de Angélica, ela sabe que jamais teria condições de pagar os R$ 557 mil que, segundo seu relato, custou a cirurgia de que precisou para tratar um aneurisma.
O problema apareceu em 2025. Geralda passou por oito médicos até chegar ao especialista que indicou o procedimento. A cirurgia foi realizada em maio daquele ano e, de acordo com ela, custeada pelo Estado.
“Eu nunca conseguiria pagar uma cirurgia de R$ 557 mil. Eu ganho um salário mínimo. Se uma pessoa não sabe onde procurar ajuda, pode acabar morrendo porque não tem dinheiro. Eu tive essa oportunidade e hoje estou bem”, conta.
Para quem observa uma planilha pública, o episódio pode aparecer como mais uma despesa do sistema de saúde. Na vida de Geralda, a conta se apresenta de maneira bem diferente: significa ter conseguido um tratamento que sua renda jamais permitiria financiar.
Histórias como a dela surgiram durante a passagem do governador Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição, por Angélica, Ivinhema e Deodápolis, no leste de Mato Grosso do Sul. Nos três municípios, Riedel apresentou um balanço das ações estaduais e ouviu moradores, gestores e trabalhadores sobre os efeitos de investimentos em infraestrutura, educação, saneamento, habitação, saúde e proteção social.
O discurso defendido pelo governador é o de que o crescimento econômico do Estado precisa ser percebido justamente nessa escala: a da cidade, do bairro e da casa das pessoas.
“Nosso compromisso é investir onde as pessoas vivem, porque é nos municípios que a vida acontece. Quando a gente leva saneamento, pavimentação, escola, saúde, qualificação profissional e infraestrutura, estamos falando de cidadania e dignidade”, afirmou Riedel.
Angélica cresce — e cobra infraestrutura
Em Angélica, onde os investimentos estaduais informados pelo governo somam R$ 70,9 milhões, a mudança econômica trouxe também um problema típico das cidades que crescem rapidamente: fazer a infraestrutura acompanhar a expansão populacional.
Segundo o prefeito Edison Cassuci, a chegada da Adecoagro alterou a dinâmica local. Em cerca de 15 anos, a população teria passado de aproximadamente 6 mil para 12 mil habitantes.
“A cidade praticamente dobrou de população e precisamos de infraestrutura para receber essas pessoas e garantir qualidade de vida”, afirma.
Parte dos recursos estaduais foi direcionada justamente para essa demanda. Dos R$ 70,9 milhões contabilizados, R$ 67,7 milhões estão ligados à infraestrutura e obras. Houve pavimentação na Avenida Francisco Marcolino, no Bairro Esplanada e na região da Praça da Polícia Militar e da Rodoviária, além de trabalhos de recuperação viária. Outra intervenção prevista é a do Córrego Mutum, estimada em cerca de R$ 15,6 milhões.
Cassuci afirma que Angélica esteve entre os municípios com menor cobertura de pavimentação e estima que hoje entre 55% e 60% da área esteja asfaltada. Também destaca os mais de 20 quilômetros de ligação entre a cidade e o distrito de Ipezal.
Mas infraestrutura urbana não resume a atuação estadual no município.
Quatro escolas da rede receberam reformas, atendendo um conjunto de 1.298 estudantes. Há ainda 43 unidades habitacionais em andamento pelo Minha Casa, Minha Vida Rural, com participação financeira do Estado.
É na escola que Tamires da Silva Santos, de 36 anos, percebe outra dimensão dessas mudanças. Seu filho cursa o 9º ano na rede estadual.
“Meu filho estuda na escola estadual e eu não tenho reclamações. A gente percebe que a qualidade do ensino melhorou”, diz.
Para Geralda, porém, a presença do poder público continua tendo o significado mais elementar possível: estar viva depois de enfrentar uma doença que exigiu um tratamento incompatível com sua renda.
Ivinhema tenta fazer serviços públicos acompanharem a economia
A alguns quilômetros dali, Ivinhema enfrenta um desafio semelhante: aproveitar o dinamismo econômico sem permitir que o crescimento pressione excessivamente a infraestrutura e os serviços públicos.
Os investimentos estaduais apresentados para o município chegam a R$ 150,4 milhões. O maior volume está na infraestrutura, com R$ 98,6 milhões, seguido de R$ 32,8 milhões em saneamento e R$ 15,1 milhões em educação.
As obras incluem recuperação viária, pavimentação, controle de erosões e intervenções no distrito de Amandina. Na ligação regional, há trabalhos na MS-475, em um trecho de 26,9 quilômetros, além de obras no trevo da Usina Vale do Ivinhema, na MS-141, e a implantação de três pontes.
O prefeito Juliano Ferro associa esse movimento ao crescimento impulsionado pela indústria, pelo comércio e pelas empresas que prestam serviços à atividade produtiva local.
“Aqui temos a Adecoagro e uma parte comercial muito forte. Temos também vários prestadores de serviços que trabalham para a usina e isso movimenta a economia”, afirma.
Um dos indicadores que diferenciam Ivinhema é a cobertura de esgotamento sanitário, que chegou a 91,62%. Na educação, três escolas estaduais passaram por reformas e a rede estadual atende 2.398 estudantes. O município também recebeu 818 títulos de regularização fundiária.
Na outra ponta das políticas públicas estão famílias que ainda dependem diretamente da proteção social. Dados de março de 2026 apontam 495 famílias atendidas pelo Mais Social e outras 323 pelo Energia Social.
Para a secretária municipal de Assistência Social, Lucimara da Silva Nogi, o desafio é evitar que o auxílio se transforme em destino permanente.
“O nosso objetivo é que essas famílias tenham autonomia e consigam se desvincular da assistência. Os programas são importantes, mas precisamos criar condições para que elas tenham oportunidades e possam caminhar com as próprias pernas”, afirma.
A fala introduz uma questão que acompanha as políticas sociais para além dos números de atendimento: proteger quem precisa no presente sem perder de vista a criação de condições para que as famílias construam maior autonomia.
Também é nesse equilíbrio entre crescimento e capacidade de atendimento que Juliano Ferro situa o apoio estadual à saúde. Ivinhema mantém um hospital municipal e, segundo o prefeito, o convênio com o Estado é fundamental para sustentar os serviços destinados à população.
Em Deodápolis, 34 anos de espera terminam com a chegada do asfalto
Se Geralda encontrou na saúde pública uma resposta para um problema que não poderia enfrentar sozinha, em Deodápolis a merendeira Luciane Grandisse, de 49 anos, viu o poder público entrar duas vezes na história recente de sua família.
Há 24 anos trabalhando em uma escola municipal, Luciane acompanhou o agravamento do problema no joelho do marido até o ponto em que ele ficou praticamente limitado a uma cadeira de rodas. Uma cirurgia, realizada com apoio do Estado, mudou essa rotina.
“Hoje meu marido faz de tudo em casa; antes, ele não fazia mais nada”, conta.
Pouco depois, outra mudança chegou literalmente à porta da família: o asfalto.
Luciane esperava por ele havia 34 anos.
“Eram 34 anos e a gente já não tinha mais esperança. Agora está tudo asfaltado, todo bonitinho, calçado. Quando a gente vê o Estado duas vezes agindo na vida das pessoas assim, é outra coisa. Está mais fácil viver aqui”, relata.
Deodápolis concentra o maior volume de investimentos entre os três municípios visitados: R$ 239,6 milhões, dos quais R$ 213,5 milhões foram direcionados à infraestrutura e obras.
Na área urbana, R$ 19,8 milhões foram aplicados em pavimentação e recuperação viária, com
intervenções em bairros como Presidente Castelo, João Paulo II, Santa Terezinha e Lagoa Bonita. Também foram executadas obras de ponte, iluminação de rotatórias e recuperação do pavimento.
Na infraestrutura regional, estão em andamento a ponte sobre o Rio Dourados, na MS-274, e a restauração de dois trechos da MS-276. Somadas, essas duas frentes alcançam mais de 60 quilômetros de rodovia e representam investimentos superiores a R$ 170 milhões.
Na educação, seis obras foram concluídas. Entre elas, a reforma e ampliação da Escola Estadual Lagoa Bonita, com R$ 9,8 milhões, e a reforma da Escola Estadual João Baptista Pereira, que recebeu R$ 4,1 milhões. A rede estadual atende 1.458 estudantes em cinco unidades.
Nem todos os indicadores, entretanto, traduzem avanço suficiente.
O saneamento continua sendo um dos principais gargalos de Deodápolis. Apesar de cerca de R$ 9,9 milhões em investimentos entre obras concluídas e em execução, apenas 22,43% do município conta com cobertura de esgotamento sanitário, um dos índices mais baixos de Mato Grosso do Sul. A ampliação dessa rede permanece, portanto, como uma das demandas para os próximos investimentos.
Na área social, 320 famílias recebem o Mais Social e 169 são atendidas pelo Energia Social.
O prefeito Jean Carlos da Silva também destaca a ampliação da educação em tempo integral. Segundo ele, Deodápolis aumentou em 80% a oferta nessa modalidade e pretende manter a expansão.
Quando crescimento passa a significar alguma coisa
A visita de Riedel aos três municípios expõe duas faces de uma mesma discussão.
De um lado estão os grandes números: dezenas de milhões de reais, quilômetros de rodovias, redes de esgoto, escolas reformadas, programas sociais e obras de pavimentação. Do outro estão pessoas como Geralda e Luciane, para quem a presença do Estado não se manifesta em uma planilha de investimentos, mas na possibilidade de fazer uma cirurgia, recuperar a autonomia dentro de casa ou finalmente deixar para trás décadas vivendo em uma rua sem asfalto.
Esse é também o argumento que Riedel elenca: o de que a expansão econômica de Mato Grosso do Sul precisa chegar aos municípios na forma de serviços, infraestrutura e oportunidades.
Os próprios dados apresentados durante a passagem pelo leste do Estado mostram a necessidade de dar andamento a este processo. O crescimento de Angélica continua exigindo infraestrutura; em Ivinhema, a assistência social ainda atende centenas de famílias que buscam autonomia; e Deodápolis carrega um déficit expressivo de saneamento.
Para Luciane, entretanto, parte dessa transformação já pode ser observada da porta de casa. Depois de 34 anos de espera, a rua foi asfaltada. Dentro dela, o marido voltou a realizar atividades que o problema no joelho havia tornado quase impossíveis.
É nessa distância entre aquilo que ainda falta e aquilo que já conseguiu mudar a vida cotidiana que estará um dos desafios dos próximos anos: fazer com que o crescimento do Estado continue deixando de ser apenas um indicador econômico e se torne perceptível para quem vive nos municípios.

