DEODÁPOLIS: Politicagem em cima da tragédia? Câmara anunciou R$ 200 mil para famílias atingidas pelo granizo, mas apenas R$ 100 mil foram repassados

Prefeitura diz que não houve cobrança formal pelo restante do repasse, você morador, acha que houve politicagem em cima do sofrimento das famílias ou entende que a Câmara cumpriu o que foi anunciado?

Deodapolisnews


A devolução de R$ 200 mil do duodécimo da Câmara Municipal de Deodápolis, anunciada durante uma sessão realizada em maio deste ano como uma forma de ajudar as famílias atingidas pela forte tempestade de granizo que atingiu o município, passou a gerar questionamentos após um levantamento realizado pela reportagem nos registros de transparência.

Na sessão do dia 22 de maio de 2026, vereadores destacaram que o valor seria devolvido ao Poder Executivo para auxiliar diretamente as famílias prejudicadas pelo temporal ocorrido em 16 de maio.

Durante a discussão, o vereador Edmilson da Banda afirmou que a Câmara destinaria “um valor de 200 mil reais do duodécimo da Câmara Municipal” e que o recurso iria “diretamente para o Executivo, para ajudar as famílias que foram prejudicadas”.

O parlamentar também afirmou que o dinheiro deveria ser utilizado imediatamente para a compra de telhas e chegou a dizer que “a partir de segunda-feira, o dinheiro vai ser devolvido R$ 200 mil” e que “segunda-feira, está na conta do Executivo”.

Na mesma sessão, o então presidente da Câmara, Juninho Lima, destacou que a devolução representaria uma demonstração de preocupação do Legislativo com a população e citou “transparência e responsabilidade com o dinheiro público”.

PORTAL REGISTRA R$ 100 MIL APÓS O GRANIZO

Entretanto, o levantamento realizado pela reportagem nos registros de transparência encontrou um repasse de R$ 100 mil realizado em 22 de maio de 2026, justamente na data em que a Câmara anunciou a devolução dos R$ 200 mil.

Até 9 de setembro de 2026, não havia sido localizado no levantamento da reportagem outro repasse de R$ 100 mil da Câmara para a Prefeitura referente aos R$ 200 mil anunciados para auxiliar as famílias atingidas pelo granizo.

Diante da diferença entre o valor anunciado e o valor localizado nos registros, a reportagem procurou o presidente da Câmara, Juninho Lima, questionando, entre outros pontos, por que aparecia apenas um repasse de R$ 100 mil, se houve um segundo repasse, qual seria a data, o empenho e a ordem bancária e onde estaria o restante dos R$ 100 mil.

A resposta do presidente foi curta.

“Foram devolvidos sim”, afirmou Juninho Lima.

Posteriormente, o presidente orientou que os questionamentos fossem encaminhados pelo canal oficial da Câmara.

“Peço que façam a solicitação de informação no canal oficial da Câmara Municipal de Deodápolis; E qualquer matéria veiculada sobre esta pauta este assunto, espero que esperem a resposta oficial da casa de leis!”, declarou. (Conforme o anexo no final da matéria)

A reportagem também encaminhou os questionamentos à Controladoria da Câmara Municipal, por meio do canal indicado no Portal da Transparência. Até o fechamento desta matéria, não houve resposta da Controladoria com a apresentação de documentos que comprovassem um segundo repasse de R$ 100 mil.

PREFEITURA CONFIRMA RECEBIMENTO DE R$ 100 MIL

A Prefeitura de Deodápolis também foi procurada para esclarecer quanto efetivamente recebeu da Câmara após a tempestade e qual foi a destinação dos recursos.

Em resposta ao Deodápolis News, o Executivo confirmou que R$ 100 mil ingressaram nos cofres municipais em 22 de maio de 2026, a título de devolução de duodécimo da Câmara.

Segundo a Prefeitura, “após o evento climático ocorrido em 16 de maio de 2026, houve o ingresso de R$ 100.000,00, em 22 de maio de 2026, nos cofres municipais, a título de devolução de duodécimo pela Câmara Municipal.”

O Executivo também esclareceu que houve outras duas devoluções realizadas pela Câmara em 2026, mas que foram anteriores à tempestade.

Foram R$ 90 mil em 12 de março e R$ 100 mil em 7 de abril, totalizando R$ 190 mil antes do temporal. Segundo a Prefeitura, esses valores estavam relacionados ao apoio à realização da Expoad.

Com o repasse de R$ 100 mil realizado em 22 de maio, as devoluções da Câmara ao Município chegaram a R$ 290 mil ao longo de 2026.

Entretanto, quando considerado especificamente o período posterior à tragédia provocada pelo granizo, a Prefeitura confirma apenas o repasse de R$ 100 mil realizado em 22 de maio.

A administração municipal afirmou ainda que, até a data da resposta, esses eram os valores e as respectivas datas de devolução constantes nos registros contábeis do Município.

PREFEITURA NÃO COBROU OS OUTROS R$ 100 MIL

Questionada se havia cobrado formalmente da Câmara o restante dos R$ 200 mil anunciados durante a sessão, a Prefeitura respondeu que não.

Segundo o Executivo, a Câmara possui autonomia administrativa e financeira para administrar seu orçamento e realizar devoluções de eventual saldo de duodécimo.

A Prefeitura também afirmou que o anúncio de uma intenção de devolução, por si só, não representaria um crédito ou obrigação financeira exigível pelo Executivo.

Dessa forma, não houve cobrança formal da Prefeitura pelo segundo R$ 100 mil.

MAIS DE R$ 313 MIL EM MATERIAIS PARA ATENDER FAMÍLIAS

A Prefeitura informou ainda que os R$ 100 mil recebidos em 22 de maio ingressaram contabilmente como devolução de duodécimo, na fonte de Recursos Não Vinculados de Impostos.

No atendimento às famílias atingidas pelo temporal, porém, o município afirma ter realizado um investimento superior ao valor devolvido pela Câmara.

Segundo os dados apresentados pelo Executivo, foram adquiridas 684 telhas de fibrocimento de 2,44 metros, 2.700 telhas de fibrocimento de 3,66 metros e 5 mil parafusos, totalizando R$ 313.556,60 somente nessas aquisições emergenciais.

A Prefeitura ressaltou que os R$ 100 mil devolvidos pela Câmara contribuíram para o custeio das ações, mas não foram suficientes para cobrir integralmente as despesas, sendo necessário complementar os recursos com dinheiro do próprio Município.

CERCA DE 300 FAMÍLIAS FORAM ATENDIDAS

De acordo com relatório da Secretaria Municipal de Assistência Social apresentado pela Prefeitura, aproximadamente 300 famílias haviam sido atendidas até 14 de julho com itens destinados ao enfrentamento da calamidade.

O Executivo esclareceu, entretanto, que não é possível identificar contabilmente quais famílias foram atendidas especificamente com os R$ 100 mil provenientes da Câmara, uma vez que os recursos foram utilizados dentro das ações gerais de atendimento e houve complementação com recursos municipais.

A Prefeitura apresentou ainda uma estimativa proporcional segundo a qual os R$ 100 mil corresponderiam a aproximadamente 95 famílias, mas fez questão de ressaltar que esse número é apenas uma estimativa e não representa a quantidade exata de famílias atendidas exclusivamente com o dinheiro devolvido pela Câmara.

Isso porque a quantidade de materiais necessários variou de acordo com os danos encontrados em cada imóvel.

Com as respostas recebidas, permanece um ponto que precisa ser esclarecido documentalmente.

Na sessão de 22 de maio, vereadores falaram expressamente na devolução de R$ 200 mil para ajudar as famílias atingidas pelo granizo, inclusive mencionando que o dinheiro estaria na conta do Executivo.

A Prefeitura, por sua vez, confirma documentalmente em sua resposta o recebimento de R$ 100 mil em 22 de maio e informa que, até a presente data, esse é o valor registrado após a tempestade.

O presidente da Câmara afirma que “foram devolvidos sim”, mas, até o fechamento da reportagem, a Câmara não apresentou à reportagem documento indicando a data, empenho, ordem bancária ou comprovante de um segundo repasse de R$ 100 mil.

A questão, portanto, não é apenas sobre a intenção anunciada na sessão, mas sobre quanto efetivamente chegou aos cofres da Prefeitura para atender as famílias atingidas pela tragédia.

A reportagem deixa o espaço aberto para que a Câmara Municipal apresente os documentos referentes ao eventual segundo repasse e esclareça publicamente a diferença entre os R$ 200 mil anunciados e os R$ 100 mil confirmados pela Prefeitura como recebidos após o temporal.

DIÁRIAS E GASTOS DA CÂMARA TAMBÉM ENTRAM NO DEBATE

O caso ganha ainda mais atenção diante dos gastos registrados pela Câmara Municipal com diárias e inscrições em cursos.

Levantamento realizado pela reportagem aponta que, somando 2025 e o primeiro semestre de 2026, as despesas com diárias chegaram a R$ 828.910,00, enquanto os gastos com inscrições em cursos totalizaram R$ 444.177,00, alcançando R$ 1.273.087,00 nas duas categorias.

Somente no primeiro semestre de 2026, foram registrados 132 pagamentos de diárias, com R$ 302.580,00 pagos. No mesmo período, os gastos com diárias para viagens a Maringá chegaram a R$ 145.380,00, além de inscrições em eventos realizados em Foz do Iguaçu e Maringá.

Os gastos com diárias e cursos, por si só, não significam necessariamente irregularidade, mas fazem parte do conjunto de despesas que precisam ser acompanhadas pela população, especialmente quando o Legislativo anuncia devoluções de recursos para atender situações emergenciais.

TRANSPARÊNCIA

O episódio coloca em discussão não apenas o valor destinado às famílias atingidas pelo granizo, mas também a necessidade de que os números divulgados publicamente estejam acompanhados da documentação correspondente.

A pergunta que permanece é objetiva: se a Câmara anunciou a devolução de R$ 200 mil para ajudar as famílias atingidas pelo granizo, onde está o comprovante dos outros R$ 100 mil?

Até que a documentação seja apresentada, o que consta na resposta oficial da Prefeitura é o recebimento de R$ 100 mil em 22 de maio, enquanto o presidente da Câmara afirma que os R$ 200 mil foram devolvidos.

Confira os arquivos encaminhados pela prefeitura que comprovam o repasse de R$ 100 mil reais:

Resposta do vereador Juninho Lima via Whatsapp - Foto: Reprodução

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